“Não mais. Ontem eu quis desesperadamente a sua companhia lá naquele banco da praça, quis ficar ali com você a noite toda se pudesse.”
- Caio Fernando Abreu.
Lembra-se do dia em que tomei emprestado o seu carro novo em folha e o amassei?
Pensei que me mataria, mas você não me matou.
E lembra-se da vez em que o arrastei para a praia e você disse que ia chover, e choveu?
Pensei que ia dizer “Eu não disse?”. Mas você não disse.
Lembra-se da vez em que namorei todos os caras para lhe fazer ciúmes, e consegui?
Pensei que você me largasse, mas você não largou.
Lembra-se da vez em que derramei torta de morangos em cima do tapete do seu carro?
Pensei que fosse me bater, mas não bateu.
E lembra-se da vez em que me esqueci de lhe avisar que a festa era a rigor, e você apareceu de jeans?
Pensei que fosse me largar, mas não largou.
É, houve uma porção de coisas que você não fez.
Mas me aguentou, e me amou, e me protegeu.
Havia muitas coisas que eu queria lhe retribuir quando você voltasse do Vietnã.
Mas você não voltou.
Do livro: Vivendo, amando e aprendendo. Do Léo Buscaglia.
Já passava das 3 da manhã, quando ela resolveu ligar.
- Alô!
-’ Fala.
- Está dormindo?
-’ Estou acordado, não costumo falar ao telefone quando estou dormindo.
- Como está?
- ‘Com sono.
- Hoje comprei aquelas rosas, sabe? aquelas que se espalham.
- ‘Hm. Qual a cor?
- Vermelhas.
- ‘Porque se chamam rosas? se podem ser vermelhas e brancas também.
- Não sei, poderia chamar-se “vermelha”, “branca” e ter a cor rosa,tanto faz.Eu gosto assim.
- ‘Ligou pra falar sobre as rosas?
- Não, liguei pela saudade. O que está fazendo?
- ‘Agora? falando com você, me diluindo dentro de uma garrafa de conhaque, e assistindo um filme na tv ,fala sobre um pessoal americano na faculdade, bebida, sexo, festa, essas besteiras todas iguais que aparecem nesses filmes sabe?
- Sei sim.
-’ Mas e tu? Está bem?
- Sim.
-’ Ótimo. Parece tensa, quer dizer algo?
- Para de fingir que tudo vai muito bem,sabe que precisamos um do outro.
-’ Eu sei, mas não dá.
- PORQUE NÃO?
-’ Você não quer.
- É que eu não posso, não queria que fosse assim, quero tudo de novo, como antes.
-’ Afinal, o que a gente é?
- Um engano.
“Eles se amam, todo mundo sabe mas ninguém acredita. Não conseguem ficar juntos. Simples. Complexo. Quase impossivel. Ele continua vivendo sua vidinha idealizada e ela continua idealizando sua vidinha. Alguns dizem que isso jamais daria certo, outros dizem que foram feitos um para o outro. Eles preferem não dizer nada. Preferem meias palavras e milhares de coisas não ditas. Ela quer atitudes, ele quer ela. Todas as noites ela pensa nele, e todas as manhãs ele pensa nela. E assim vão vivendo até quando a vontade de estar com o outro for maior do que os outros. Enquanto o mundo vive lá fora, dentro de cada um tem um pedaço do outro. E mesmo sorrindo por ai, cada um sabe a falta que o outro faz. Nunca mais se viram, nunca mais se tocaram e nunca mais serão os mesmos. É fácil porque os dias passam rápidos demais, é dificil porque o sentimento fica, vai ficando e permanece dentro deles. E todos os dias eles se perguntam o que fazer. E imaginam os abraços, as noites com dores nas costas esquecidas pelo primeiro sorriso do outro. E que no momento certo se reencontrem e que nada, nada seja por acaso.”
- Tati Bernardi.
Porque, pra viver de verdade, a gente tem que quebrar a cara. Tem que tentar e não conseguir. Achar que vai dar e ver que não deu. Querer muito e não alcançar. Ter e perder. Tem que ter coragem de olhar no fundo dos olhos de alguém que a gente ama e dizer uma coisa terrível, mas que tem que ser dita. Tem que ter coragem de olhar no fundo dos olhos de alguém que a gente ama e ouvir uma coisa terrível, que tem que ser ouvida. A vida é incontornável. A gente perde, leva porrada, é passado pra trás, cai. Dói, ai, dói demais. Mas passa. Está vendo essa dor que agora samba no seu peito de salto agulha? Você ainda vai olhá-la no fundo dos olhos e rir da cara dela. Juro que estou falando a verdade. Eu não minto. Vai passar.
(Caio Fernando Abreu)